OPINIAUN PÚBLIKU, (LIBERDADETL) — A recente controvérsia diplomática entre Timor-Leste e a Guiné-Bissau, provocada pelas declarações do primeiro-ministro timorense Kay Rala Xanana Gusmão, ao classificar a atual governação guineense como estado falhado, não pode ser lida apenas como um incidente protocolar. Ela revela uma tensão mais profunda: como conciliar a soberania política com a responsabilidade moral dentro de uma comunidade de nações que partilham história, língua e destino a CPLP.
A reação do governo guineense, expressa pelos ministros da Defesa e dos Negócios Estrangeiros, foi firme e previsível. Nenhum Estado aceita facilmente que a sua legitimidade seja colocada em causa no espaço público internacional. A linguagem política, sobretudo quando envolve conceitos como “estado falhado”, toca diretamente a dignidade nacional. A resposta foi, portanto, mais do que diplomática; foi identitária.
Contudo, reduzir o episódio a uma ingerência externa seria empobrecer o debate. Timor-Leste não falou como potência distante, mas como membro de uma comunidade que, desde a sua adesão, procura assumir responsabilidade ativa dentro da CPLP. E mais ainda num momento em que lhe foi confiada liderança e acompanhamento político perante a instabilidade vivida na Guiné-Bissau após as tensões eleitorais recentes.
Aqui emerge uma questão ética: o silêncio teria sido mais respeitoso?
Hannah Arendt recorda que a política não se funda apenas na autoridade, mas na responsabilidade partilhada pelo mundo comum. Ignorar fragilidades institucionais num país irmão poderia equivaler a abandonar a própria ideia de comunidade. Assim, as palavras de Kay Rala Xanana Gusmão podem ser entendidas não apenas como juízo político, mas como advertência moral, ainda que dura.
A filosofia de Paul Ricoeur ajuda a iluminar este momento. Para ele, a verdadeira fraternidade inclui a “solicitude crítica”: cuidar do outro implica também dizer verdades incómodas, porém sem destruir a sua dignidade. É precisamente aqui que o episódio ganha significado maior. Após a reação guineense, o primeiro-ministro Kay Rala Xanana Gusmão pediu desculpa caso tivesse ferido sensibilidades e cancelou uma visita oficial prevista no âmbito da CPLP. Não se tratou de recuo político, mas de gesto ético: RECONHECER A DOR DO OUTRO SEM NEGAR A PREOCUPAÇÃO INICIAL.
Este pedido de perdão revela maturidade diplomática. Kant afirmava que a paz entre povos não nasce da ausência de conflito, mas da capacidade de transformar desacordo em respeito recíproco.
Ao pedir desculpa, Timor-Leste não renunciou à sua preocupação com a estabilidade guineense; apenas reconheceu que a forma pode ferir tanto quanto o conteúdo. A dignidade do interlocutor tornou-se prioridade.
A CPLP, muitas vezes vista como comunidade simbólica, encontra aqui uma prova concreta da sua natureza. Comunidades reais não vivem apenas de consenso, mas de diálogo, correção e aprendizagem.
A Guiné-Bissau defendeu a sua honra soberana; Timor-Leste expressou inquietação ética e depois praticou humildade política. Entre crítica e reconciliação construiu-se um espaço de maturidade coletiva.
No fundo, o episódio recorda uma intuição aristotélica: a amizade política é mais exigente que a mera coexistência. Amigos verdadeiros não são os que silenciam sempre, mas os que sabem falar e, depois, saber pedir perdão. DENTRO DA CPLP, FALAR COMO IRMÃO IMPLICA TAMBÉM RECONHECER QUANDO A PALAVRA, PESA MAIS DO QUE DEVERIA.
Talvez seja este o verdadeiro significado do ocorrido. Não um conflito diplomático, mas um exercício de fraternidade imperfeita, onde a verdade procura não humilhar e o perdão não procura apagar a responsabilidade.
Se a comunidade lusófona conseguir aprender com este episódio, terá dado um passo para deixar de ser apenas uma herança histórica e tornar-se uma verdadeira comunidade moral.











